Chernobyl, União Soviética, 26 de abril de 1986, 1h23 pelo
horário local. O reator 4 da usina nuclear sofre um catastrófico aumento de
potência e o núcleo explode várias vezes, liberando gás xenônio, metade da
carga de iodo-131 e de césio-137 e pelo menos 5% do material radioativo
restante. Os 50 mil habitantes de Pripyat são retirados às pressas,
transformando-a em uma cidade-fantasma. Uma nuvem de radiação — 100 vezes maior
que a das bombas de Hiroshima e Nagasaki — espalha-se sobre a Ucrânia, a Bielorrússia,
a Rússia e sobre parte da Europa e da Escandinávia. Nos anos seguintes, 4 mil
pessoas desenvolvem câncer de tireoide, inclusive a engenheira Natalia
Manzurova, que se viu obrigada a trabalhar na descontaminação da área (leia a
entrevista). Reportagem de Rodrigo Craveiro, no Correio Braziliense.
Acidente na usina nuclear de Fukushima permenece rodeado de
mistério
Fukushima, Japão, 11 de março de 2011, 14h46. Um terremoto
de magnitude 9 na escala Richter provoca um tsunami devastador, que mata 27 mil
pessoas e danifica quatro dos seis reatores da usina nuclear de Fukushima
Daiichi. Três explosões nos prédios da central atômica levam ao vazamento de
radioatividade na atmosfera. Especialistas temem que o combustível do núcleo do
reator 2 tenha sofrido derretimento completo. Altos níveis de césio-137,
iodo-131 e plutônio são detectados na água. Ainda se desconhece o impacto do
acidente sobre a saúde humana. No entanto, a população num raio de 20km foi
removida às pressas. Quem vive entre 20km e 30km de distância da usina recebeu
o conselho de deixar a região e se afastar ainda mais.
Enquanto Chernobyl ocupa o nível 7 — o máximo na Escala
Internacional de Evento Nuclear (Ines, pela sigla em inglês) —, Fukushima
recebeu a classificação de nível 6. Iouli Andreev também atuou na tentativa de
descontaminar Chernobyl e, após o acidente, foi diretor científico do serviço
de emergência nuclear russa Spetsatom. Em entrevista ao Correio, ele explica
que o fato de a informação sobre Fukushima ser vaga e fragmentada torna quase
impossível comparar os dois desastres. “Toda a radiação de Chernobyl foi
liberada durante as duas primeiras semanas após a explosão. Em Fukushima, a
radioatividade ainda é expelida e se desconhece a quantidade final”, comenta.
Segundo Iouli, o padrão comum de ambos os acidentes é a tentativa de esconder a
situação real do público e dos especialistas estrangeiros.
Na semana passada, o governo japonês divulgou que a
quantidade de iodo radioativo na água em torno da usina de Fukushima superava
em 5 milhões o limite legal. Iouli considera a medida “uma complicada tentativa
de mascarar números reais”. “Até agora, a Companhia de Energia Elétrica de
Tóquio (Tepco) não forneceu dados sobre a distribuição de estrôncio, plutônio e
outros radionucleídeos na área contaminada. Ninguém vai beber a água do mar. Os
limites legais devem ser aplicados ao ar, à água encanada, aos alimentos e à
radiação ambiental”, conclui o especialista.
Pior
Nos últimos dias, Natalia Mironova causou polêmica ao
garantir que o incidente em Fukushima é muito pior do que o de Chernobyl. “Iodo
radioativo, estrôncio, plutônio e trítio têm sido descarregados na atmosfera,
por meio da evaporação da água do mar usada para cobrir os reatores e os
depósitos de combustível nuclear gasto”, explica a presidente do Movimento para
Segurança Nuclear da Rússia. Mironova lembra que em Fukushima houve vazamento
de água radioativa para o oceano. “Ao cobrir a terra, a vegetação e os
mananciais, a radiação foi incluída imediatamente na cadeia alimentar. O ar, a
água potável, os vegetais e os frutos do mar estão contaminados”, alerta.
Mironova admite que cada acidente é único, dependente da
combinação de fatores e da paisagem natural ao redor. De acordo com a
engenheira termodinâmica e ativista antinuclear, o Japão precisa lidar com
quatro reatores fora de controle, enquanto o problema em Chernobyl se
restringia a apenas um. “Os reatores de Fukushima continuam expelindo fumaça. O
processo em Chernobyl durou duas semanas”, compara. A especialista aconselha que
toda a contaminação na província japonesa seja mapeada, e não apenas modelada
por computador, a fim de se conhecer os danos reais. Ela reconhece a
insuficiência de informações sobre o que ocorreu em Fukushima. “Em Chernobyl,
década após década, as estimativas sobre os danos causados pelo desastre
multiplicaram de 10 para 100 vezes”, sustenta. A russa defende uma análise
criteriosa sobre o impacto na economia japonesa e na esfera dos suprimentos —
finanças, alimentos, transporte, água potável, medicina e gasolina. E adverte:
“As ambições nucleares destruíram a União Soviética enquanto Estado. Veremos o
que ocorrerá ao Japão”.
Em Chernobyl, Iouli jamais pôde concluir as tarefas
iniciadas 25 anos atrás. “Era parte de meu trabalho desenvolver os métodos de
descontaminação do solo, dos reservatórios de água, dos prédios e das
florestas”, relata. Até hoje, porém, a chamada Zona Chernobyl permanece
contaminada.
“Era apenas mais um trabalho”
Natalia Manzurova chegou a Prypiat (atual Ucrânia) em abril
de 1986. Então com 35 anos, a engenheira especialista em ecologia e radiação
cumpria ordens de Moscou. Nos quatro anos e meio seguintes, atuaria como um dos
800 mil liquidadores — termo usado para se referir ao profissional responsável
pela limpeza da usina nuclear de Chernobyl e pela construção do sarcófago do
reator 4. Em entrevista exclusiva ao Correio, por telefone, ela contou que não
imaginava o risco que correria durante o trabalho. A radioatividade deixou-lhe
várias sequelas e transformou-a em uma ativista contrária à energia atômica. A
sobrevivente do pior acidente nuclear da história alerta que o desastre na
usina de Fukushima já se compara ao de Chernobyl.
Como a senhora enfrentou o medo da radiação, enquanto
trabalhava na limpeza da área de Chernobyl?
Quando fui convocada a fazer esse trabalho, era apenas mais
um trabalho. Eu fui até lá como se fosse um médico se preparando para uma
intervenção cirúrgica. Não conhecíamos a proporção do acidente. A situação não
estava clara quando cheguei a Chernobyl. No início, não sabíamos que havia
vazamento de radiação.
Que sequelas a senhora sofreu ante a exposição excessiva à
radioatividade?
Eu sofri uma deficiência no sistema imunológico, que não
está funcionando bem. Também desenvolvi uma aberração cromossômica. Por causa
do excesso de radiação, o DNA e os cromossomos sofreram muitos danos. Quando eu
tinha 40 anos, descobri um tumor e precisei extrair a tireoide. Eu não conheço
nenhum outro liquidador que tenha sobrevivido ao acidente nuclear sem
apresentar todos os tipos de danos causados pela radiação. Quando olho para os
jovens liquidadores de Fukushima, eu me identifico com eles.
Na sua opinião, existe o risco de Fukushima se tornar pior
que Chernobyl?
Nós já temos um acidente que repete Chernobyl. Quando vejo
os liquidadores de Fukushima, vejo jovens, assim como na Ucrânia. Também temos
populações removidas, que sofrem profundamente com as circunstâncias do evento.
São pessoas que não sabem como agir e não sabem se houve o impacto sobre o meio
ambiente ou sobre elas mesmas. Os radionucleídeos descarregados de Fukushima
atingiram a água e o meio ambiente, enquanto em Chernobyl eles se concentraram
mais no solo. Em Fukushima, a radioatividade atinge cada vez mais fundo o
oceano e o solo. A burocracia nuclear, a indústria nuclear, era muito bem
organizada em Chernobyl.
De que modo o mundo deve lidar com a energia nuclear? Qual é
a receita para reduzir riscos?
Não existe uma solução para garantir a segurança da energia
nuclear. O que se pode fazer é aplicar dinheiro em pesquisas com energias
alternativas. (RC)
EcoDebate, 12/04/2011
Local virou atração turística
Em meio a lagos, terra arenosa e florestas nas estepes ao
norte de Kiev, fica Chernobyl, que adquiriu notoriedade internacional quando,
no dia 26 de abril de 1986, técnicos fizeram uma experiência com um dos quatro
reatores de energia nuclear ali instalados. Ele sofreu uma catastrófica
explosão de vapor que resultou em incêndio, uma série de explosões adicionais,
e um derretimento nuclear. Sem um recipiente de contenção, o conteúdo
radioativo foi carregado pelo ar sobre grandes porções da Europa, causando um
pânico internacional. Hoje, há uma área de exclusão de 30 km em torno de Chernobyl,
o que não impede a visita contante de turistas – numa modalidade algo mórbida
de passeio.
No período mediamente após a explosão, foram mortos 31
trabalhadores da usina, e milhares de outras pessoas que viviam na região que
hoje faz parte da Ucrânia e da Bielorrússia receberam doses que radiação que
encurtaram suas vidas. Cientistas divergem sobre o número de mortos. A
Organização Mundial de saúde afirma que foram 4 mil. Os números do Greenpeace,
que parecem notavelmente exagerados, falam em 200 mil.
Níveis significativos de césio 137, estrôncio 90 e isótopos
de plutônio ainda poluem o solo local. Em uma zona conhecida como Floresta
Vermelha, chegou a um nível 20 vezes mais alto que o da contaminação de
Hiroshima e Nagasaki, o que ainda é muito perigoso.
A explosão de Chernobyl foi o pior acidente nuclear do
mundo, e é o único classificado no nível sete da Escala Internacional de
Eventos Nucleares. Os 25 anos do acidente, no mês que vem, certamente ganharão
uma ressonância dramática, depois dos incêndios nos reatores de Fukushima, que
ressuscitaram temores de que o pânico nuclear tome o planeta mais uma vez- embora o evento no Japão tenha sido
classificado no nível cinco da escala.
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